Publicado em 03/09/2026
Quando lecionava sobre o assunto na universidade, era muito comum achar nos livros que os museus tinham surgido na Itália do Renascimento, certamente outro mito produto do eurocentrismo. De fato, muito antes, o primeiro registro foi, sem dúvidas, na cidade de Alexandria.
Se bem é lembrada pela monumental biblioteca, livros não foram os únicos objetos que colecionara. De lá também temos um dos primeiros zoológicos, com exemplares trazidos de regiões longínquas, herbanários e outros acervos fruto de coletas. Itens que não eram apenas guardados para simples acúmulo, mas que serviam como insumos de pesquisa. O conhecimento do mundo era um capital valioso.
E esse saber se dava por duas formas básicas: por um lado, desbravando o novo, como a Europa fizera nas “descobertas”, e, por outro, através da saturação, ao perscrutar com maior profundidade o velho conhecido. Os objetos não são desvendados de uma única vez, mas num processo de sucessivas aproximações, às vezes afastadas por séculos.
Por isso, pensar que podemos alcançar o conhecimento da totalidade de algo num ato é uma pretensão de perigosa onipotência. O saber se acumula ao longo do tempo, com paciência e, muitas vezes, por golpe de sorte. Se bem possa parecer algo fútil, levei uma década para catalogar uma taça, fato que consegui ao adquirir outra peça com tonalidade, haste e bases similares. Assim, por proximidade, afunilei a pesquisa e dei com a sua origem certa.
Muitas vezes é necessário o desenvolvimento de instrumentos específicos que revelam aspectos que, com outros, passam por alto. Quadros ocultos saem à luz, pigmentos quase desaparecidos nos revelam as cores das hoje brancas esculturas greco-romanas, processos químicos nos permitiram datar com melhor precisão, numa longa lista que parecera não ter fim.
Desta forma, museus, arquivos de todos os tipos, não são simples reservatórios de coisas mortas, mas fontes incalculáveis de insumos que nos podem revelar mistérios importantes, inclusive de fronte para o futuro. Isso nos permite conhecer, por exemplo que o uso da penicilina era prática comum em muitas culturas antes da formalização da sua descoberta por Alexander Fleming.
Hoje, engenheiros e arquitetos se maravilham com as técnicas cimentícias do Panteão, redescobrimos propriedades de sementes antigas, voltamos a recriar espécies extintas, brincando de Deus, reinventamos os jardins suspensos da Babilônia. Tudo graças à conservação patrimonial, que não deve estar restrita a recintos específicos, mas nos envolver como um todo.
Nosso olhar, que alimenta o cérebro, vai se constituindo de repertórios. Por isso, quanto mais rico o ambiente, mais fértil será a nossa inteligência. E essa riqueza não é monetária. María Elena Walsh explicava que suas canções infantis tinham surgido observando insetos na sua infância. E quanto a humanidade deve à autora de “omo la cigarra”!
As cidades devem ser museus a céu aberto, as residências devem conjugar o passado no presente, inclusive para poder projetar o futuro. O Renascimento não seria nada sem os modelos greco-romanos, que pulalam pela Itália toca. O que seria de Klimt sem Bizâncio? Enfim, o que restaria da arquitetura moderna sem as experiências acumuladas por séculos de construção? O passado não é apenas aquilo que ficou para trás, mas também aquilo que permitiu que algo novo pudesse surgir.
Porque abrir o patrimônio é a segurança de que esse capital permaneça disponível para a Humanidade. Como dizia Clemenceau, ao afirmar que a guerra era um assunto demasiado importante para ser deixado nas mãos dos militares, o patrimônio não pode ser deixado apenas nas mãos de profissionais específicos. Seus vieses poderiam nos escamotear dados relevantes no futuro, como já muitas vezes tem acontecido.
Quantas obras foram apagadas, silenciadas, deturpadas por uma determinada visão? Será que o nosso olhar técnico está livre de cometer antigos atropelos? O que hoje é relevante pode não ser no futuro e o que hoje é descartado como intranscendente pode nos deparar surpresas mais adiante. O que teria sido a obra de Vincent van Gogh sem a persistência de sua cunhada, Johanna van Gogh-Bonger?
Como pesquisar as condições dos setores populares se apenas conservamos o que pertence ao universo das elites? Como dar valor à diversidade cultural se priorizamos apenas uma vertente da cultura? Longe da neutralidade, os repositórios são perpassados pelas mesmas clivagens sociais.
Desta forma, o patrimônio serve como uma memória expansível, viva, não meramente passiva. Ele alimenta o futuro e este a retroalimenta. Os gregos sabiam isso muito bem: não existem tempos diferentes, mas uma dinâmica temporal. Quanto de passado carregamos? De quantas épocas diferentes? Como o futuro os reativa? O passado permanece igual após passar pelo seu implacável crivo? Heróis viram vilãos, com direito a demolição de monumentos inclusive.
Assim como somos poeiras de estrelas, o tempo nos constitui. Hoje escrevo este pequeno ensaio ancorado no passado, no qual construí minha vagagem intelectual, mas numa clara perspectiva de futuro. E esquecer isto pode ser fatal. Quantas empresas naufragam por se ofuscar pelo brilho futuro? E quantas padecem por se prender a um tempo áureo que já não existe? Monarquias, grandes empresas não são imunes, também desabam, até com mais estardalhaço.
O reposicionamento individual e coletivo exige, inexoravelmente, refletir sobre todas essas questões. O passado tem muito a nos ensinar. Mas sua sabedoria se despliega apenas se questionado corretamente. Sem as perguntas certas, o passado é um ente praticamente mudo. Nada fala por si; somos nós que colocamos as palavras nele.
Daí que nós não sejamos proprietários desse patrimônio, mas seus fiéis depositários. A nossa tarefa é sua conservação e, na medida do possível, também a sua ampliação, não apenas em matéria, mas em significados. Quanto cresceram as composições de Frida Kahlo desde que foram concebidas? Seus quadros continuam os mesmos, mas os olhares mudaram significativamente. E voltamos ao que falamos outras vezes: nunca atravessaremos o mesmo rio, nem veremos o mesmo quadro.
O patrimônio, portanto, não é apenas aquilo que recebemos. É também aquilo que entregaremos. Cada geração acrescenta alguma coisa ao olhar que recebe e, ao mesmo tempo, deixa novas perguntas para aquelas que virão. Talvez essa seja a verdadeira dimensão desse capital: não poder ser inteiramente consumido. Podemos estudá-lo, reinterpretá-lo, questioná-lo e até discordar daquilo que as gerações anteriores disseram sobre ele, mas não podemos nos dar ao luxo de deixá-lo desaparecer.
Porque aquilo que hoje parece inútil pode amanhã se revelar indispensável. E aquilo que hoje julgamos conhecer pode ainda esconder algo que somente outro tempo, com outras perguntas e outros instrumentos, será capaz de revelar.
Assim, constitui um capital que cresce sem deixar de ser o mesmo. Cresce porque acumulamos matéria, documentos, imagens e objetos, mas, sobretudo, porque carregamos com novos significados. E talvez seja essa a sua maior riqueza: conservar o passado não para permanecer nele, mas para garantir que a Humanidade continue tendo de onde partir para navegar novos mares.
Dr. Hernán Ramírez