Os gregos formulavam filosofia através de mitos e, com Cronos, nos davam a ideia de que nada escapava ao tempo. Por isso, todo recorte temporal serve apenas para colocar algum marco, nunca ele é definitivo. Até porque Albert Einstein nos ensinou que ele também era relativo.

Assim, estabelecer uma distinção precisa do que seria antiguidade, vintage ou retrô parece até pueril. No final das contas, observadas as distâncias temporais, tudo virará antiguidade algum dia. Se ela tem cem, vinte ou menos anos, como estabelecem as métricas consagradas, não é muito relevante. Mais do que colecionar anos, o que busco é algo que mereça atenção apesar do passo do tempo.

Seu crivo implacável determina o que é imperecedouro, inclusive passando por cima de modas e mandatos sociais. No final das contas, as vanguardas muitas vezes eram denostadas em vida e cultuadas depois. Assim, a resiliência termina por ser um dos requisitos-chave para algo se tornar uma antiguidade.

O tempo está condensado no objeto e não me refiro apenas àquele físico, mas principalmente ao tempo social. E tentar calcular essa métrica em um objeto pode nos levar a conclusões enganosas. Tomemos a lenda do círculo perfeito de Giotto como efeito de demonstração. Quanto tempo se demorou em desenvolver um material, um estilo, uma técnica e até treinar a mão de quem a executa magistralmente?

E esse tempo tem seu valor, mais do que genialidade, é o tempo que valoriza uma peça e existem seres que podem pagar por ele. Geralmente, as peças mais bonitas, por acumularem mais tempo de trabalho, pertenciam a altos dignatários, quando não ao próprio Estado. Eles acumulavam excedente em arte, em objetos de prestígio.

Por isso, as peças de maior relevo pertencem à realeza, em menor medida à nobreza, ao clero ou à alta burguesia. Eles adquiriam ou patrocinavam como mecenas artistas que dedicavam tempo a embelezar suas residências ou túmulos. E, no final das contas, essa concentração de renda não era totalmente ruim, permitia a alguns dedicar integralmente seu tempo a fazer obras-primas.

Graças a esse sistema hierárquico temos as pirâmides egípcias, Versailles, o Palácio de Inverno, Schönbrunn, a Praça Celestial. Os Estados Unidos podem ser a maior potência do planeta, mas não possuem nada que se lhe compare.

No seu auge, foram criados verdadeiros sistemas, com empresas específicas para abastecer esse maquinário. Sèvres, Meissen, Royal Copenhagen, KPM Berlin, Nymphenburg, Saint Louis e, claro está, Fabergé, que se converteu em emblema da decadente realeza russa. Que exportava deslumbre para esconder suas imensas falhas estruturais.

Mas nem todos cristalizavam tempo em obras grandiosas, a forma como a alta burguesia dos Países Baixos exibia distinção através do seu minimalismo. Johannes Vermeer pintava cenas do cotidiano, apenas uma dezena de quadros em toda sua vida, obras-primas eram feitas em cascas de nozes. Inclusive, grandes artistas flertaram entre o monumental e o minúsculo. O sino de Cellini pode impressionar até mais do que a sua famosa porta.

Uma taça lapidada de modo exuberante, um bronze cinzelado, uma porcelana pintada à mão de forma meticulosa contém horas e horas de trabalho. Muitas vezes coletivo, pois a especialização era tamanha que suas produções seguiam um certo fordismo avant la lettre. Exércitos de artesãos produziam essas obras, que eram uma amostra de poder. O poder de cristalizar tempo humano em objetos.

Luís XIV não produziu nenhuma obra de relevo, mas é lembrado como o artífice de Versailles, Pedro erigiu uma cidade com seu nome. Todo grande que se prezava da sua grandeza tinha que deixar sua marca nas artes, marcando assim uma era. Inclusive, o absolutismo ilustrado fez disso seu centro de poder, aprisionando suas cortes em gaiolas douradas.

De todo modo, todo sistema termina por gerar as suas próprias contradições. Essas engrenagens se transformavam em pesados lastros que consumiam cada vez mais recursos, provocando a ira dos súditos e seu consequente colapso. Por isso, as modas artísticas sabem ser pendulares, um momento de exuberância seguido de outro de recato. Os tempos da economia podiam ditar também as necessidades nas modas.

Pode não ter relação causal à primeira vista, mas tem. A Pragmática de Felipe IV, proibindo o guardainfante, pode parecer curiosa, mas não o é desde essa ótica. Limitando o uso dessa singular vestimenta, se tinha a pretensão de aliviar as contas do reino, inclusive a cláusula de liberação do seu uso para prostitutas licenciadas cobra sentido, pois a mulher que o usara automaticamente entrava nessa condição defronte de uma das sociedades mais moralistas da Europa do seu tempo.

Faraós apagavam cartuchos dos seus rivais, gregos os enviavam ao ostracismo, reis impunham seus estilos sobre os dos seus antecessores, tudo era uma luta por reconhecimento na distinção. A exuberância do View Paris era grito de vitória da burguesia francesa sobre os nobres que se retiravam em debandada.

Mas é um equívoco pensar que apenas as elites se distinguiam pela posse de objetos. A cultura material é mais ampla, dedicar tempo para fabricar algo para um ente querido era uma mostra de afeto. Quantas horas leva fazer um tecido? Quantas mãos são necessárias para fiar, tingir, tecer, bordar e finalmente transformar uma matéria bruta em algo que possa vestir ou adornar alguém? O tempo não se acumulava apenas nos palácios, nas catedrais ou nas grandes construções. Ele também estava presente nos objetos aparentemente mais banais, justamente aqueles que acompanhavam todo o percurso de vida.

Assim, os objetos são algo mais do que matéria, eles são a condensação de relações no tempo. Por isso, seu significado está além da sua simples aparência. Ele foi carregado de camadas. Minha primeira papinha foi feita num ralador de frutas prensado, o mesmo que usei quando meu filho era pequeno. Qualquer um pode vê-lo e não entender o que significa para mim. Isso é o que os torna singulares. Não é o objeto em si, mas a relação que estabelecemos com ele ao longo da vida.

Dr Hernán Ramírez