Aprendemos com Marc Bloch que a história serve, acima de tudo, para compreender o presente. Antes de se tornar um antiquário, FormaPrima foi pensada nessa sintonia. Vivemos tempos “interessantes”, como gostava de dizer Eric Hobsbawm, com transformações rápidas, nas quais as mudanças parecem ocorrer à velocidade da luz. E Cronos, que tudo devora, nos impõe a necessidade de olhar para o nosso tempo com a maior precisão possível. Temos que o decifrar qual o enigma de esfinge.

Talvez o nosso pecado seja cair na ilusão biográfica, que Pierre Bourdieu tanto condenava, mas não podemos negar que somos a soma de todos os nossos atos, inclusive dos atos de terceiros. Uma ação pontual representa a ponta de um gigantesco iceberg, erigido ao longo da nossa vida. FormaPrima resulta desse acúmulo de experiências. Nela estão o pensamento cósmico para o qual minha mãe me abriu desde que vi a luz, a sensibilidade social do meu pai e muitas das leituras e pesquisas que fiz ao longo de décadas.

Engana-se quem pensa que sua estrutura é apenas física: ela tem raízes muito mais profundas, que ficam invisíveis, mas que ali estão e a sustentam com maior firmeza que o próprio cimento. Nosso propósito era construir um antiquário, mas ele não é apenas um amontoado de belas peças: é uma empresa, sujeita ao devir econômico como qualquer outra. E um dos maiores desafios era entender, precisamente, o espaço que iria ocupar. Não bastava saber o que queríamos oferecer; era necessário compreender como fazê-lo circular, chegar às pessoas e permanecer sustentável no tempo.

Nosso ponto de equilíbrio encontrava-se, precisamente, em manter a tradição, a sensibilidade que caracteriza um antiquário, com a inovação que nos garantisse o sustento no tempo como empreendimento. Todo cuidado é pouco: o moinho satânico de que nos falava Karl Polanyi não perdoa ninguém. E mais: quantas empresas que legaram obras-primas que hoje nos maravilham não resistiram às agruras econômicas?

A solução encontrada foi construir um ecossistema que abrangesse todas as formas de circulação de acervos. Desde a presença física à virtual, pois a pandemia acelerou migração dos hábitos humanos. E não apenas no que se refere ao consumo. Hoje, até relações amorosas acontecem por aplicativos. Tal observação não é uma condenação, mas uma celebração. Sabemos que todas as armas neste terreno são válidas. O desafio, portanto, não é escolher entre o físico e o virtual, mas fazer com que ambos se alimentem mutuamente, ampliando as possibilidades de encontro entre os objetos e aqueles que os procuram.

De todo modo, não apenas de mudanças estamos constituídos, mas de permanências. Assim, o fato de esta Newsletter estar alocada num site de e-commerce tem o propósito de manter uma certa tradição. É uma forma de nos materializar de corpo presente no árido terreno da virtualidade, de nos conectar para além de uma relação econômica. Sabemos que os critérios de autoridade e confiança são essenciais no nosso ramo. Por isso, queremos que a tecnologia seja uma extensão da nossa presença, e não um substituto para ela.

Como corolário, mais do que um antiquário e, talvez, pela minha tradição acadêmica, o que temos construído é uma espécie peculiar de laboratório-escola em circulação de acervos. Aqui criamos, aprendemos e ensinamos todos os dias. Às vezes com uso e elaboração de teorias; outras, na empiria pura. Aprendemos sobre arte, mas também sobre processos na gestão comercial desses objetos. Cada peça nos coloca diante de uma pequena investigação: sua origem, sua materialidade, sua trajetória e as melhores escolhas para fazê-la circular novamente.

E, num mundo cada vez mais individualista e competitivo, temos nos posicionado num ponto diferente, no qual a competição é mais interna do que externa. Fazer fotografias mais bonitas, buscar informações para fazer descrições mais precisas, entender sistemas complexos e até montar verdadeiras gambiarras para baixar os custos, ludibriando um pouco esses leviatãs que são as plataformas. No final das contas, saborear pequenas vitórias contra Golias tem seu valor.

Por isso, voltando ao ponto inicial, acredito que não tenha me desviado muito da minha trajetória inicial. Embora ela se desvie em diversos pontos, sempre volta para seu cauce original. Iniciei como professor e estou sempre voltando ao ponto de partida. Parece que ela me serve como uma espécie de Meca, que segura minha nave quando sopram tempestades.

E navegar esses mares bravios é algo que aguça minhas maiores paixões. Acomodação não foi algo que perdurou muito na minha vida. Mas as aventuras que mais me atraem são, sem dúvida, as intelectuais. Uma sorte de roda-viva na qual subir um degrau é o mais instigante até o próximo degrau. Por isso, este tem sido um desafio que tomei como minha última grande metamorfose.

Como epistemólogo, e assim me considero porque sempre fiz reflexões a respeito, meu primeiro posicionamento foi entender um objeto novo, testar hipóteses e fazer intervenções das mais diversas. E aqui entrou meu veio transdisciplinar: pensar cada espaço, trabalhar relações humanas, explorar novos métodos. De todo modo, não sei se por ser argentino ou historiador, ou talvez por ambos, ancorei os dois pés no chão dos meus sonhos. Não porque precisasse de um paraquedas, mas porque, como falava Antoine de Saint-Exupéry no Pequeno Príncipe, me torno responsável por aqueles que cativo.

A Nave FormaPrima pode ter sido idealizada por uma única pessoa, mas nela embarcaram muitas outras, e devo responder também por elas. Num mundo no qual as relações de trabalho estão cada vez mais precarizadas, apostar no crescimento das jovens gerações tem que constituir quase um imperativo. Pode ser quixotesco, mas acredito que seja o mais seguro. Afinal, um empreendimento não se sustenta apenas por aquilo que constrói para si, mas também pelo que é capaz de construir nas pessoas que dele participam.

FormaPrima vai!

Dr. Hernán Ramírez