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Início . Blog . Grandes marcas, egos de titãs

Grandes marcas, egos de titãs

Publicado em 02/09/2026

Grandes marcas, egos de titãs

Cada era apresentava a sua como sendo a definitiva. Roma construiu um império que representava o ápice do seu tempo, pois tudo girava em torno dela, assim como, depois, o Rei Sol iluminava o universo desde Versailles. Mas não apenas o Ocidente acreditava ser o epítome: muitas outras civilizações acharam estar por cima das demais.

E não era para menos, algumas delas o estiveram efetivamente. Essa concorrência parece eterna, na qual regiões disputam com outras a primazia em algo que as coloque em posição superior. Mas isso não era tarefa fácil.

Certamente, uma das áreas em que essa disputa se manifestava era a superioridade militar. Quem tinha os maiores exércitos e os maiores armamentos. Mas essa não era a única disputa que se dava na cultura material. Outras, mais sutis, eram travadas nos ramos das artes ou, se se quer, em coisas tão aparentemente fúteis como cristais ou porcelanas.

Quando o Rei Sol faz sua encomenda para o Salão dos Espelhos, não era apenas para satisfazer seu ego pessoal, mas para reafirmar sua superioridade técnica sobre seus rivais. Aliás, Paris não leva à toa o mote de cidade-luz, pois foi uma das primeiras grandes capitais europeias a experimentar a iluminação pública em escala. New York pode ter sua Times Square, mas nada deve se comparar ao frenesi que Louis XIV causara com suas decisões.

A luta pelo domínio passava por inúmeras frentes. Além dos cristais e das porcelanas, esse exibicionismo passava pelos metais e por todo tipo de material que se possa imaginar. Mais adiante, a feira de vaidades ganhou um local específico, uma sorte de Meca com a qual todos sonhavam um dia chegar: as Exposições Universais. Foi lá o epicentro dessa demonstração de talento que o mundo registraria.

Cada país procurava apresentar aquilo que tinha de melhor, não apenas para vender produtos, mas para mostrar do que era capaz. Máquinas, tecidos, metais, vidros, porcelanas, móveis, instrumentos e toda sorte de objetos eram colocados diante dos olhos de um público que, ao mesmo tempo em que admirava, comparava. A cultura material transformava-se em uma espécie de linguagem internacional, na qual cada sociedade procurava falar mais alto que as demais.

Eram, nesse sentido, grandes teatros da modernidade. Não bastava possuir uma técnica; era preciso demonstrá-la. Não bastava produzir um objeto; era necessário fazê-lo parecer superior. A matéria passava a ser também argumento, prova de capacidade, demonstração de civilização. Fazer as peças com mais brilho, os cristais mais transparentes, as maiores estruturas; tudo precisava anunciar que havia chegado mais longe que o outro.

A própria ideia de progresso encontrou nesses lugares uma de suas maiores vitrines. Não por nada o Palácio de Cristal foi sua grande cobertura. Cada invenção parecia anunciar que o futuro havia chegado. Era uma carreira contra o tempo: a cada edição, uma novíssima invenção tinha que ser apresentada. A técnica começava a produzir necessidades que antes sequer existiam, muitíssimo antes dos celulares.

E essa não era apenas uma disputa por objetos, era uma luta pela narrativa. Comunicar ao mundo que estava à frente da fronteira tecnológica. O objeto como novidade passava a ser uma pequena declaração de poder.

Por isso, a disputa pela matéria nunca foi apenas uma disputa pela matéria. Era uma disputa pelo significado que conseguíamos atribuir a ela. O objeto tornava-se uma pequena declaração de poder. Quanto mais difícil fosse produzir determinada cor, determinado corte, determinada liga metálica ou determinada porcelana, maior podia ser seu prestígio. O domínio técnico transformava-se em distinção política.

Para aquilo que outros exércitos arregimentavam soldados, milhares de artistas, artesãos e técnicos se aglutinavam em grupos que giravam em torno de mestres comandantes. E assim nasceram não apenas oficinas, mas se ergueram cidades e se movimentaram regiões inteiras. Nesse aspecto, o Vale do Silício não inventou modinha.

Cada cidade-estado da Itália era um celeiro de artistas e artesãos. A França concentrou na Lorraine parte importante de sua produção de cristais. A Saxônia tinha em Meissen uma das grandes referências da porcelana europeia, que mais tarde rivalizaria com Sèvres, transformada em símbolo do luxo francês, enquanto a própria França fazia de suas manufaturas instrumentos de prestígio e poder.

Nos cristais, outra manufatura francesa se fez famosa como marca real, muito antes de Baccarat alcançar seu próprio sitial de privilégio. Saint-Louis, nascida ainda no século XVI, receberia o título de Verrerie Royale em 1767, sob Luís XV. A mais modesta Bélgica, com sua monarquia tardia, também gerou uma marca emblemática com Val Saint Lambert.

A Grã-Bretanha se destacou na produção metálica, tendo na região de Sheffield um de seus pontos álgidos, algo no qual a França rivalizou até hoje, com empresas como Christofle ou Tétard Frères, que serviram mesas reais, aristocráticas e da alta burguesia.

A Alemanha produziu talvez uma das manufaturas mais belas do Art Nouveau, a WMF, ao passo que a Áustria nos encantou com sua produção cerâmica e de vidros com efeitos estonteantes como os de Lötz, antes da padronização do nome para Loetz. Mas sua decadência política logo as ofuscaria diante do requinte que vinha novamente da França, com produções como Lalique, Gallé, Etling e tantos outros.

Parece até estranho que os Estados Unidos não tenham entrado nessa corrida, tendo poucas marcas alcançado o estatuto de ícones. Talvez Louis Comfort Tiffany seja uma das que mais mereça chegar a essa condição. Com seus vidros soprados em formatos únicos e, claro, seus abajures, nos quais levou o vitral a uma dimensão doméstica e extraordinária.

Uma antiguidade assim não é apenas uma condensação do passado, mas de um passado no qual se pretendia antecipar o futuro e se disputava prestígio como forma de poder. E talvez nada expresse melhor esse anseio do que os mascotes de cristal para automóveis desenhados por Lalique. Seu futuro era o carro; seu emblema, até a substituição por símbolos metálicos mais resistentes, eram esbeltas figuras que pareciam flutuar, quase eternas.

Naqueles tempos, o Diabo não vestia Prada, mas conduzia um carro com uma Victoire no capô. Criada em 1928 para celebrar o décimo aniversário do armistício de 1918, ela era, na realidade, a coroação de uma nova era: a do automóvel. Poderosa, elegante, assinalava um futuro que parecia brilhante.

Dr. Hernán Ramírez

 
 
 
 
 
 

 

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