O versátil do ser humano se demonstra no amplo domínio que projeta sobre a matéria, inclusive seu intento de domesticá-la. Praticamente todo elemento pode ser passível de transformação, sejam eles orgânicos ou inorgânicos, resultando difícil saber por onde essa história começou, pois sabemos que o tempo faz estragos mais rápidos nos primeiros.

Antes de fazer estátuas de mármore, o homem lascou a pedra e logo a pulimentou. Provavelmente desse modo aprendeu a controlar o fogo, que dominou para transformar mais rapidamente a matéria. Do barro fez a cerâmica e derreteu minerais para convertê-los em objetos, que os combina com singular maestria para aproveitar melhor suas propriedades conseguindo melhorar o que a própria Natureza lhe presenteou.

Por isso, além de artista, era um alquimista. A arte é uma sorte de alquimia, com longos processos de aprendizado, que atravessa gerações. Tesouros eram guardados a sete chaves e às quais apenas os iniciados tinham acesso. O caulim dos chineses, o azul de Chartres ligações mil foram um segredo durante séculos.

Assim rimos um pouco desse museu de grandes novidades que editam os jornais, como falava Cazuza, os que noticiam invenções duvidosas. Cultuamos Adrià pela sua cozinha molecular. Mas, o que seria a champagne criada séculos atrás? Certamente não levava esse título, mas quanta transformação foi realizada para que, de uma simples uva, surgisse um líquido borbulhante?

E o feitiço não para por aí: o fermento que leva a crescer o pão, a levedura da cerveja, a forma como se coalha um queijo, o processo de solidificação para fazer um sorvete. Adrià apenas colocou um nome pomposo para algo que é secular na gastronomia, até na mais popular. È o presente repetindo o passado, como continuava Cazuza.

Quanta química existe na fabricação de um vidro? Sem que necessariamente seja uma uralina. Séculos de conhecimento nos levaram a transformar de forma artificial a sílica em líquido viscoso que se condensará em algo sólido, uma criação que desafia até a própria Natureza, pois obriga os fótons a mudar de condição de partícula a onda para o ultrapassar e culminar a mágica. O homem transformou coisas frágeis em fortes, opacas em transparentes através da técnica.

Tudo era passível da interação humana, inclusive seu próprio corpo. Tecidos animais e vegetais também têm sido objetos para expressar a arte. Estatuetas de marfim e ossos, madeira, a arte têxtil, couros e até cabelos foram elementos usados fazer utensílios e expressar neles arte.

Quiçás seja essa uma das características mais extraordinárias do ser humano: não se contentar com aquilo que encontra. A pedra não permanece pedra, o barro não permanece barro, o metal não permanece minério, a fibra não permanece planta. Tudo pode ser alterado, combinado, polido, tingido, queimado, fundido, tecido, talhado. A matéria, quando encontra a mão humana, deixa de ser apenas natureza para carregar também uma intenção.

Mas nenhuma dessas transformações acontece de uma só vez. Há sempre uma história anterior. O objeto que hoje admiramos é o resultado visível de conhecimentos que, muitas vezes, já não sabemos reconstruir completamente. Uma taça de cristal, por exemplo, parece simples quando colocada sobre uma mesa. No entanto, nela estão condensados séculos de experimentação: a escolha dos minerais, a temperatura do forno, a composição da massa, a técnica de soprar, cortar, lapidar e polir. Aquilo que vemos é apenas a última camada de uma longa cadeia de experiências.

É por isso que talvez seja tão difícil compreender uma antiguidade apenas pelo que os olhos alcançam. O objeto é matéria transformada, mas é também conhecimento acumulado. Há nele gestos que desapareceram, técnicas que foram aperfeiçoadas, segredos que deixaram de ser segredos e outros que talvez nunca consigamos decifrar inteiramente.

Olhar para uma antiguidade é, portanto, olhar para uma matéria que carrega consigo o trabalho de muitas mãos e o conhecimento de muitas gerações. O tempo não está apenas na sua aparência, nas marcas ou no desgaste que deixou sobre ela. Está também naquilo que foi necessário aprender para que ela pudesse existir.

De todo modo, os objetos transformados pelo homem causam também transformações nos próprios homens. Uma tela não é apenas a química que está contida nela, é a projeção que nós fazemos sobre ela, da mesma forma que a estrutura de uma igreja, a reflexão que obtemos ao observar as coisas simples, como escreveram César Isella e Armando Tejada Gómez naquela letra musicalizada por Mercedes Sosa, que nos leva a outro tipo de arte, mais efêmera do que todas as outras, ainda que hoje tenhamos idealizado formas de materializá-la.

Instrumentos musicais são, talvez, alguns dos objetos mais abstratos que temos construído. Feitos de diversas matérias, serviam para produzir sons com os quais realizar composições, criar rituais, acompanhar festas, lamentar ausências ou simplesmente produzir aquilo que chamamos de música. Um violino, um piano ou uma flauta são, nesse sentido, objetos estranhos: sua matéria é silenciosa, mas foi organizada para produzir algo que não podemos segurar. A madeira, o metal, o couro e a corda desaparecem momentaneamente para que deles surja o som.

E não apenas isso: o homem tem conseguido penetrar seu próprio corpo e até registrar seu próprio pensamento através de instrumentos que fabrica. Do microscópio ao telescópio, da câmera fotográfica ao fonógrafo, da máquina de escrever ao computador, inventamos extensões para os nossos sentidos e para a nossa memória. O objeto deixou de ser apenas aquilo que usamos para transformar o mundo exterior e passou a ser também aquilo que usamos para conhecê-lo e conhecer a nós mesmos.

Talvez seja por isso que a chamada cultura material seja tão mais ampla do que aquilo que costumamos chamar de objeto antigo. Ela compreende tudo aquilo que, tendo passado pelas mãos humanas, guarda algum vestígio de nossa passagem. Não apenas aquilo que foi feito para ser belo, mas também aquilo que foi feito para servir; não apenas aquilo que sobreviveu em palácios e coleções, mas também aquilo que esteve sobre uma mesa, numa cozinha, numa oficina ou nas mãos de alguém.

A antiguidade, então, não está somente na idade de uma coisa. Está na capacidade que ela possui de nos devolver um mundo que já não existe. Uma taça pode falar sobre uma maneira de beber; uma sela, sobre uma maneira de sentar; uma porcelana, sobre uma maneira de receber; um perfume, sobre uma maneira de imaginar o próprio corpo. O objeto permanece quando muitos dos gestos que lhe davam sentido já desapareceram.

É nesse ponto que a matéria deixa de ser apenas matéria. Transformada pelo homem, ela passa a carregar tempo, memória, técnica, gosto e desejo. E quando o tempo passa sobre ela, acrescenta ainda outras camadas: o uso, o desgaste, as marcas, as mudanças de moda e os diferentes olhares que se depositaram sobre aquilo que sobreviveu.

Talvez seja essa a razão pela qual algumas coisas antigas nos atraem de maneira tão particular. Não porque sejam simplesmente velhas, mas porque, diante delas, percebemos que também somos feitos de matéria e de tempo. Ao olhar para um objeto, olhamos também para a história que construiu o nosso próprio olhar. E é nessa relação entre matéria, homem e tempo que uma coisa deixa de ser apenas um objeto e passa a fazer parte da cultura, se imbrica a nós quase que como extensões do nosso próprio corpo e mente.

Dr. Hernán Ramírez